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O tempo não passa

Os passos se tornam mais lentos e os sentidos, debilitados, mas alguns ainda mantêm lucidez suficiente para contar suas repetidas e fascinantes histórias.

Por RSC Portal dia em Notícias

O tempo não passa
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Lara Silva

 

De quase uma vida inteira, o que restou foram lembranças e a saudade que aperta o peito. Saudade de casa, do trabalho, dos que já partiram e dos que ficaram, mas nem sempre aparecem. Essa é a realidade de muitos idosos brasileiros, que deixaram suas casas e decidiram – ou não – viver em um asilo. Em 2016, uma pesquisa feita pelo Ministério da Saúde mostrou que o Brasil era o país com a quinta maior população idosa do mundo, tendo mais de 29 milhões de pessoas acima de 60 anos de idade. A expectativa é que esse número cresça até 2030, ultrapassando a quantidade de crianças entre zero e 14 anos.

Histórias diferentes se cruzam no entra e sai da única casa de repouso de Imbituba. Entre uma mala e outra, amizades nascem e, ao longo dos anos, as perdas já não são tão incomuns, a falta de um tenta suprir a ausência do outro. Muitos desaprendem como tomar banho, comer, andar com as próprias pernas... Esquecem, até mesmo, há quantos anos estão ali, convivendo com as mesmas pessoas, fazendo as mesmas coisas e olhando, através da janela, a movimentação da mesma rua. Aos 83 anos, Elza Maria Tavares diz não ter muitas opções, então gosta conversar com os colegas e ver os carros passando. “Minha vida aqui é linda e maravilhosa, me tratam muito bem”, conta a idosa, que é a primeira a correr quando escuta o toque da campainha.

A alegria se apresenta quando os filhos chegam para matar a saudade. No entanto, de 29 idosos, menos de cinco recebem visitas regulares de parentes. “Acho que a maior necessidade deles é a questão do afeto. A gente percebe que muitos deles nem falam sobre família”, explica Giuliana Freitas, uma das enfermeiras da casa. A paulista conheceu o asilo há dois anos, mas trabalha há apenas dois meses, e já afirma que precisa ter muita energia, tanto física, quanto emocional. “Tem dias que eu saio mais cansada, mais feliz, mais tranquila ou mais preocupada com a situação deles”, confessa.

Morando na casa há menos de um ano, Elza fala das filhas com muito amor. Segundo ela, “a que mora perto vem todos os dias, mas a outra é professora em Criciúma, aí fica mais difícil, né!?”. A felicidade de Elza não está presente em todos os idosos, visto que muitos esperam ansiosos a visita de alguém querido. Épocas comemorativas, como dia dos pais, das mães e Natal, por exemplo, são as mais difíceis para alguns deles. Olhares tristes e inconformados, como se a esperança não tivesse morrido, mesmo que estejam ali, esperando, há anos. Cleusa Maria de Araújo, diretora do asilo, comenta que quando chega para o almoço de Natal se depara com eles sentados no sofá, bem tristes, porque não tiveram quem os viesse buscar. “Nós temos que suprir até essa carência, e a gente sente por eles”.

Por ser uma organização sem fins lucrativos, a lista de espera é grande. A Casa de Repouso Imaculada Conceição foi idealizada por um grupo de senhoras que faziam trabalhos manuais para ajudar pessoas carentes. A Associação Lanche da Amizade, que mantém as despesas da casa, existe até hoje e totalizam 50 senhoras que fazem promoções e sempre trabalham para garantir as contas mensais. A diretora lembra que, antigamente, a Prefeitura de Imbituba também ajudava, mas agora não mais. “Esse ano não recebemos um real, e ano passado anunciaram uma doação de R$ 120 mil, mas esse dinheiro não chegou até nós. Só está nos atrapalhando”, destaca, referindo-se às cobranças de pessoas que desejam saber o destino da subvenção. Mesmo que não fossem grandes quantias, a Prefeitura costumava ajudar e, por isso, a diretoria sempre contava com esse auxílio para o fechamento do mês. “Pagávamos a farmácia e o mercado, e se não desse para os dois, pelo menos um estava garantido”, lamenta Cleusa.

As doações não vêm somente de órgãos públicos. Na verdade, a maioria – se não todas – é de pessoas que gostam e querem ajudar quem precisa. Fraldas geriátricas, alimentos, produtos de limpeza e de higiene e até remédios são doados. Porém, existe um problema. As doações, geralmente, acontecem nos últimos dois meses do ano. De janeiro a outubro, porém, o dinheiro tem que ser contado e cada fralda separada para passar o fim de semana. Ao todo, diariamente são utilizadas em torno de 90 delas. “São coisas elementares que deixam o nosso trabalho mais custoso. Tem dia que chega a ser penoso”, explica Giuliana.

A enfermeira conta que alguns fazem tudo sozinhos, mesmo que sejam poucos. Exemplo disso é dona Zazá, a moradora mais idosa da casa. Adalgiza André está dando adeus aos 96 anos e se tem uma coisa que ela possui mais que anos de vida é disposição. Zazá nunca se casou ou teve filhos, mas lembra-se bem da juventude. Passando por mais de cinco estados brasileiros, sua vida era cozinhar, lavar, passar e tomar conta de criança. Ainda que tenha começado a trabalhar cedo, ela comenta da última família que passou antes de se aposentar. Foi em Curitiba, onde trabalhou durante 32 anos, que criou os filhos da patroa, os viu fazendo faculdade, casando, até conseguir a tão sonhada aposentadoria. Com esse dinheiro, voltou para Imbituba. “Minha irmã fez uma rifa e construiu uma casinha para mim, mas eu não gostava de morar sozinha, porque lá (o bairro) era muito perigoso”, declara.

Coisas que não mudam

Ao mesmo tempo que a longevidade dos idosos aumenta, famílias ficam cada vez menores. Casais têm menos filhos e todos estão ativos no mercado de trabalho, buscando crescer profissionalmente. Falta gente em casa com tempo disponível para se dedicar aos mais velhos. No asilo, entretanto, há cuidados constantes. A única coisa que ninguém consegue preencher é a falta que muitas coisas fazem na vida de cada idoso que ali vive. Não se fala somente em pessoas, mas sobre o que eles costumavam fazer, atividades que gostavam de praticar. Antônio Espíndola tem 78 anos e, se pudesse, gostaria de trabalhar novamente. “Carpir uma horta, um quintal, plantar...Era o que eu gostava de fazer”, admite. Antônio chegou há cinco anos e decidiu sair de casa quando separou-se de sua última esposa. “Não deu certo, então ela ficou e eu vim pra cá”. Já dona Zazá sente falta de poder dançar, e guarda nas muitas fotografias que têm, lembranças de sua juventude. “Agora eu só aprecio as danças que têm aqui, vem gente se apresentar. A gente fica só olhando, mas é muito gostoso”, completa.

Além disso, os que vivem há muito tempo no asilo comparam a época em que chegaram com os dias atuais. “No começo, a gente rezava o Pai Nosso antes de comer. Agora já virou rotina, mas eu gosto de fazer tudo”, afirma Adalgiza. Celebrações religiosas e a fé são duas coisas que movem o dia a dia dos moradores da casa. “Eu sorrio muito. E rezo. Aqui tem missa, rezamos bastante. Eu só tenho a agradecer ao meu Santo Antônio”, acrescenta Elza, batendo as mãos.

Casa de todos

Para fazer parte do asilo existem etapas fundamentais, como entrevistas e tempos de experiência, tanto por parte do idoso, quanto da casa, dos funcionários e dos outros idosos. Se o idoso recebe salário, este é passado para a diretoria, para ajudar nas medicações, fraldas, pagamentos dos enfermeiros, etc. “A maioria tem um salário mínimo, e esse dinheiro não cobre as despesas. Nós trabalhamos para pagar essa diferença”, explica Cleusa, que teme não conseguir manter a casa aberta por muito tempo, devido às dificuldades financeiras. Existem dois casos de famílias que contribuem com dinheiro adicional, porém os outros recebem menos de mil reais.

Grande parte dos idosos são cadeirantes e, por esse motivo, a Casa de Repouso não aceita mais nenhum. Cleusa comenta que o Conselho Regional de Enfermagem (COREN) cobra determinado número de cadeirantes por funcionário. “Nós temos uns quatro independentes, mas o restante precisa de ajuda no banho, outros tomam medicação controlada, tiveram AVC, amputação de perna, utilizam andador, então tem que ser bem organizado”, informa a diretora. As únicas pessoas que o asilo não pode atender são aquelas com problemas psiquiátricos, “porque sabemos que a convivência é bem delicada”.

Sobre a rotina, Cleusa comenta que é a de uma casa convencional. No entanto, durante a semana, eles têm recreação. Nas manhãs de segunda, por exemplo, fisioterapia. A profissional faz individual e finaliza caminhando com eles. O único dia que não tem atividade é quarta-feira, mas, principalmente, nessa época do ano, relata a diretora, “estamos sempre agendando visitas, seja de escolas, igrejas ou pessoas de outras cidades que vêm nos visitar”.

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